BLOG TUNANTE

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Domingo é dia de “Pa x Re”


Gerardo Von (E) e Jaime Eiras (D), num encontro no "Sindicato do Chopp" em maio de 2011, no Rio de Janeiro.

por Jaime Fernandes Eiras

Tempos atrás, um leitor de uma coluna esportiva d’O Liberal fez um comentário que reflete a maneira discriminatória como a Tuna é tratada pela Imprensa desportiva paraense, causando prejuízo à imagem do Clube e criando ufanismos exagerados, como o publicado naquele dia. Para provar isso, lembro que, sob o título “Há tempo a Tuna deixou de ser a terceira força”, o referido leitor diz que “jogos dos cruzmaltinos contra Leão e Papão já não são mais considerados clássicos”, imputando essa afirmativa ao meu vizinho e amigo Carlos Castilho. Aproveitando a deixa, esse leitor nega até mesmo o direito da Tuna ser o representante do Pará na Série C do Campeonato Brasileiro daquele ano, que, segundo ele, estaria melhor representado pelo Castanhal. Foi uma das últimas besteiras que li numa coluna de esportes. Digo uma das últimas porque a do comentarista Gerson Nogueira desta semana foi a última.

As opiniões emitidas pelo Gerson se agravam porque partem de um profissional que deveria ser imparcial nas suas colocações. Do alto de sua caneta, o Gerson “aplica” a questão do mérito, segundo a qual o domingo deve ser consagrado aos jogos entre Paysandu e Remo. Apela até para o bom senso. Bom senso de quem? Essas atitudes discriminatórias estão na origem do próprio futebol praticado no Pará; se não, vejamos.

A propalada rivalidade entre Paysandu Sport Club e Clube do Remo esconde um fato que pouca gente consegue perceber: essas duas agremiações, coincidentemente, guardam entre si muito mais pontos comuns que divergentes, a começar pelos tons de azul estampados nos seus uniformes. A Tuna Luso-Brasileira, por outro lado, é o clube que realmente faz a diferença no esporte paraense.

Paysandu e Remo nasceram de dissidências esportivas e participam de atividades futebolísticas desde os seus primórdios. Seus nomes são substantivos masculinos; os de seus mascotes também, mas são seres inexistentes: Bicho-Papão é uma lenda e Leão Azul não existe. Têm suas sedes sociais localizadas na mesma avenida (Nazaré). Fizeram uma tentativa frustrada de construir novas sedes campestres em Benfica, uma próxima à outra, em virtude do pequeno espaço nas sedes sociais, sem sucesso. Seus estádios ficam situados no início da avenida Almirante Barroso, um quase em frente ao outro, e são mais conhecidos pelos nomes das travessas que lhes franqueiam (Curuzu e Antonio Baena). São clubes de massa e seus gritos de guerra rimam muito bem: “Papããão!”; “Leããão!”.

A alviverde Tuna Luso foi fundada como um grupo musical, e somente a partir da década de 1930 passou a se dedicar oficialmente à prática do futebol; daí talvez o motivo de ter menos torcedores que esses dois adversários. Tuna é um substantivo feminino, assim como Águia, uma ave bem conhecida por sua visão perspicaz. Sua sede social, antes situada na praça da República, foi instalada no final da avenida Almirante Barroso, onde, junto com a sede campestre e o complexo do estádio de futebol, constitui a Vila Olímpica. Seu estádio é conhecido pelo nome do bairro onde fica localizado, Souza. Enquanto Paysandu e Remo se vangloriam da fidelidade de seus torcedores, a Tuna se orgulha em ser a “Elite do Norte”. Na verdade, a torcida da Tuna não é tão pequena assim. É preferível dizer que a maioria dos torcedores tunantes não vai aos estádios. Os que vão, formam a verdadeira “torcida fiel” do Pará, com seus gritos de “Águuiiaa!”.

Semelhanças e diferenças à parte, vamos fazer uma análise da importância da Tuna no cenário desportivo paraense. A Tuna não é um mero time de futebol; é um clube tradicional, com uma estrutura sócio-desportivo-recreativa solidamente estabelecida. São quase 110 anos de glórias, mas também de muita luta e incompreensão. Como torcedor tunante, vejo com tristeza que os órgãos desportivos do Pará não dão o devido valor à história cruzmaltina. A Tuna tem um patrimônio invejável, um quadro social atuante e uma tradição centenária. É o clube paraense com maior número de títulos náuticos. É o que tem a melhor infraestrutura nas categorias de base. Tem 2 títulos nacionais de futebol, incluindo a cobiçada Taça de Prata, 10 campeonatos e 17 vice-campeonatos regionais. É detentora de vários títulos de voleibol, natação, futebol de salão, tiro ao alvo, boxe e atletismo. Esses títulos estão registrados ao longo de toda a sua vida desportiva. Graças à Tuna, atletas como Agberto Guimarães chamaram a atenção dos sulistas para o atletismo que se pratica no Norte do Brasil. Esses feitos têm divulgado o nome da Tuna Brasil afora. Querem um exemplo? Certa vez, um motorista de táxi no Rio de Janeiro, ao saber que eu era paraense, perguntou-me: você é torcedor da Tuna ou do Paysandu? Então, o que falta à Tuna? Falta ser tratada de modo igualitário por parte dos órgãos desportivos do Pará, sem discriminação, sem paixões ou interesses. Falta mais espaço na mídia e maior divulgação dos feitos do Clube.

Dias desses li a coluna de um renomado comentarista esportivo paraense na qual ele destacava eufórico que o Re x Pa é o clássico regional mais disputado do Brasil e talvez do mundo. Segundo ele, são mais de 600 jogos. Sim, eu pergunto: e daí? Ainda não saturou? Bem ... depois dizem que o campeonato paraense dá prejuízo. É a hora de se colocar na ordem alfabética: os tempos dos grandes clássicos se foram; o tradicional clássico Re x Pa parou no tempo, não se renovou, virou Pa x Re.

Uma das famosas leis de Murphy diz que “alguém só consegue crescer até o limite da sua incompetência”. O limite da incompetência do esporte paraense é insistir em acreditar que pode ser um grande centro futebolístico polarizado entre dois clubes: Paysandu e Remo. Os grandes centros, como Rio e São Paulo, têm quatro ou mais clubes grandes com as mesmas chances de disputa.

A Imprensa, na ânsia por audiência, e a Federação, na expectativa de mais arrecadação, supervalorizam os jogos de Paysandu e Remo em detrimento dos da Tuna. Esquecem que, como diz o famoso dr. Stuart Diamond, presidente da Global Strategy Group, da The Wharton School, Universidade da Pensilvânia, “um sistema com três é melhor que com dois, porque um sistema com três é mais estável. Se um fraquejar, os outros dois mantêm o sistema”.

A situação atual do futebol amazonense é um bom exemplo: a polarização entre Nacional e Rio Negro não suportou os tempos de crise e esses clubes definharam até os limites de seus estertores. Deram vez a um clube de subúrbio, o São Raimundo, e o futebol amazonense nunca mais foi o mesmo. Que isto sirva de alerta ao futebol paraense.

Ao se analisar um cenário esportivo, deve-se levar em consideração a história dos clubes e não apenas a situação do momento. A atual crise técnico-administrativa pela qual está passando o futebol paraense é uma crise que só poderá ser superada com o esforço dos verdadeiros desportistas. A Tuna já está acostumada a superar crises, pois vem superando há anos as conseqüências de ousar enfrentar aqueles que, erroneamente, acham que no futebol paraense só há espaço para dois clubes grandes.

E os clubes do Interior? Bem ... esses ainda são simples times participantes do Campeonato Paraense de Futebol. Quando jogam contra o Paysandu, recebem o apoio da torcida do Remo, e vice-versa. Quando jogam contra a Tuna, recebem o apoio de ambas as torcidas; ficam com cara de time grande e aí vem a euforia descabida de alguns torcedores. Já nascem com apoio político, o que traz mais problemas ao já tão conturbado esporte paraense. Nada mais que isso. Podem ter futuro, mas falta tradição e infraestrutura, coisas primordiais no futebol. Somente isso.

Quanto ao senhor Gerson Nogueira, bem... acho que ele deve procurar outros afazeres nos domingos, pois os dias dos grandes e tradicionais clássicos do futebol paraense podem estar com os dias contados se essa mentalidade discriminatória não for mudada. Ó, Gerson, Pa x Re com isso!

Jaime Eiras é geólogo, torcedor e sócio da Tuna Luso Brasileira.

Um comentário:

  1. Caro Jaime, faço de suas palavras o meu protesto. Concordo com todos as suas ponderações e ainda colocaria muitas outras. Fiz o meu protesto no mesmo dia da publicação desta postagem.
    Só para compararmos algumas de suas afirmações, no dia da entrega do Troféu Rômulo Maiorana deste ano, no último dia 16/04, em Belém, o Mestre de Cerimônia lembrou a todos os presentes que muitos dos padrinhos dos atletas indicados para receber o prêmio eram atletas formados ou que passaram pela Tuna, num claro exemplo de comprometimento com a história do esporte de nosso estado. Isso é compromisso com o público, diferentemente dos frágeis argumentos levantados pelo renomado colunista. E olha que ele diz para todo mundo que seu pai era torcedor cruzmaltino!

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